3# BRASIL 11.12.13

     3#1 O LIVRO BOMBA
     3#2 ENCONTROS MARCADOS
     3#3 ENTREATOS NA PRISO

3#1 O LIVRO BOMBA
As impressionantes afirmaes do ex-secretrio nacional de Justia Romeu Tuma Jnior sobre a fbrica de dossis dos petistas contra os adversrios, o assassinato do prefeito Celso Daniel, o mensalo e o passado do ex-presidente Lula. 
ROBSON BONIN 

     A Secretaria Nacional de Justia  um posto estratgico no organograma de poder em Braslia. Os arquivos do rgo guardam informaes confidenciais de outros pases, listas de contas bancrias de investigados e documentos protegidos por rigorosos acordos internacionais. Cercado por poderosos interesses, esse universo de informaes confere ao seu controlador acesso aos mais restritos gabinetes de ministros e a responsabilidade sobre assuntos caros ao prprio presidente da Repblica. Durante trs anos, o delegado de polcia Romeu Tuma Jnior conviveu diariamente com as presses de comandar essa estrutura, cuja mais delicada tarefa era coordenar as equipes para rastrear e recuperar no exterior dinheiro desviado por polticos e empresrios corruptos. Pela natureza de suas atividades, Tuma ouviu confidncias e teve contato com alguns dos segredos mais bem guardados do pas, mas tambm experimentou um outro lado do poder  um lado sem escrpulos, sem lei, no qual o governo  usado para proteger os amigos e triturar aqueles que so considerados inimigos. Entre 2007 e 2010, perodo em que comandou a secretaria, o delegado testemunhou o funcionamento desse aparelho clandestino que usava as engrenagens oficiais do Estado para fustigar os adversrios. 
     As revelaes de Tuma sobre esse lado escuro do governo esto reunidas no livro Assassinato de Reputaes  Um Crime de Estado (Topbooks; 557 pginas; 69,90 reais), que chega s livrarias nesta semana. Lanado no momento em que o ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo, enfrenta acusaes de ter usado a estrutura da pasta para vazar detalhes de uma investigao que comprometeria lderes da oposio, o livro mostra que esse procedimento, mais que uma coincidncia,  um mtodo dos petistas para perseguir e difamar desafetos do governo. Segundo o ex-secretrio, a mquina de moer reputaes seguia um padro. O Ministrio da Justia recebia um documento apcrifo, um dossi ou um informe qualquer sobre a existncia de conta secreta no exterior em nome do inimigo a ser destrudo. A ordem era abrir imediatamente uma investigao oficial. Depois, algum dava uma dica sobre o caso a um jornalista. A divulgao se encarregava de cumprir o resto da misso. Instado a se explicar, o ministrio confirmava que, de fato, a investigao existia, mas dizia que ela era sigilosa e ele no poderia fornecer os detalhes. O "investigado",  claro, negava tudo. Em situaes assim, culpados e inocentes sempre agem da mesma forma. O estrago, porm, j estar feito. 
     No livro, o autor apresenta documentos inditos de alguns casos emblemticos desse modus operandi que ele reuniu para comprovar a existncia de uma "fbrica de dossis" no corao do Ministrio da Justia. Uma das primeiras vtimas dessa engrenagem foi o governador de Gois, Marconi Perillo (PSDB). Senador  poca dos fatos, Perillo entrou na mira do petismo quando revelou  imprensa que tinha avisado Lula da existncia do mensalo. O autor conta que em 2010 o ento ministro da Justia Luiz Paulo Barreto entregou em suas mos um dossi apcrifo sobre contas no exterior do tucano. As ordens eram expressas: Tuma deveria abrir uma investigao formal. O trabalho contra Perillo, revela o autor, havia sido encomendado por Gilberto Carvalho, ento chefe de gabinete do presidente Lula. Contrariado, Tuma Jnior refutou a "misso" e ainda denunciou o caso ao Senado. Esse ato, diz o livro, foi o primeiro passo do autor para o cadafalso no governo, mas no impediu novas investidas. A fbrica de dossis voltou ento a sua artilharia contra o ento senador Tasso Jereissati (PSDB), severo opositor de Lula no Congresso. A frmula era a mesma. Tuma Jnior relata que foi chamado ao Congresso para uma conversa com o ento senador Aloizio Mercadante (PT). No encontro, recebeu dele um pen drive e um pedido para que investigasse Jereissati. O autor abriu o dispositivo e constatou que se tratava de outro dossi apcrifo. O livro conta que at o Departamento de Recuperao de Ativos e Cooperao Jurdica Internacional (DRCI), tambm chefiado por Tuma Jnior, chegou a ser usado clandestinamente na tentativa de obter informaes desabonadoras sobre despesas sigilosas da ex-primeira-dama Ruth Cardoso. 
     Assassinato de Reputaes  um livro cujas revelaes no podem simplesmente ser varridas para debaixo do tapete. Seu autor afirma relatar apenas fatos e situaes vividas por ele prprio. E  rigoroso. No se vale de depoimentos de terceiros nem passa adiante boatos ou insinuaes. "Eu conto aquilo que vi", disse Tuma Jnior a VEJA. Ele viu muita coisa. Seu livro traz documentos que deixam o governo Lula em pssima luz. Alguns deles mostram que o governo agiu para engavetar uma investigao que identificara uma suposta conta do mensalo no exterior. O ex-secretrio revela que todos os ministros do Supremo Tribunal Federal foram grampeados ilegalmente pela Polcia Federal e pela Abin em 2007. Um dos captulos  dedicado ao ainda misterioso assassinato do prefeito petista Celso Daniel, em 2002. Tuma Jnior reproduz um dilogo entre ele e Gilberto Carvalho no qual o ministro confessa que entregava o dinheiro desviado da prefeitura de Santo Andr nas mos do mensaleiro Jos Dirceu. O autor se convenceu de que Celso Daniel foi morto em uma operao de queima de arquivo. 
     Idealizado inicialmente para desconstruir a campanha de difamao de que o autor foi vtima (Tuma foi demitido do governo sob a acusao de manter relaes com contrabandistas), o livro, escrito em parceria com o jornalista Cludio Tognolli, professor de duas universidades em So Paulo, pescou mais fundo das memrias do autor: ''Entrevistei Tuma Jnior seis dias por semana durante dois anos. Ele queria uma obra baseada na revelao de fatos, queria que a publicao do livro o levasse ao Congresso para depor nas comisses, onde ele poderia mostrar documentos que no tiveram lugar no livro na sua inteireza". Fica a sugesto .

"HAVIA UMA FBRICA DE DOSSIS NO GOVERNO"
Por que Assassinato de Reputaes? 
Durante todo o tempo em que estive na Secretaria Nacional de Justia, recebi ordens para produzir e esquentar dossis contra uma lista inteira de adversrios do governo. O PT do Lula age assim. Persegue seus inimigos da maneira mais srdida. Mas sempre me recusei. Tentaram me usar para esquentar um dossi contra o governador de Gois, Marconi Perillo, s porque ele avisou o Lula da existncia do mensalo. Depois, quiseram incriminar o ex-senador Tasso Jereissati servindo-se do meu departamento para forjar uma investigao sobre contas no exterior. Havia uma fbrica de dossis no governo. Sempre refutei essa prtica e mandei apurar a origem de todos os dossis fajutos que chegaram at mim. Por causa disso, virei vtima dessa mesma mquina de difamao. Assassinaram minha reputao. Mas eu sempre digo: no se vira uma pgina em branco na vida. Meu bem mais valioso  a minha honra. 

De onde vinham as ordens para atacar os adversrios do PT? 
Do Palcio do Planalto, da Casa Civil, do prprio Ministrio da Justia... No livro, conto tudo isso em detalhes, com nomes, datas e documentos. Recebi dossis de parlamentares, de ministros e assessores petistas que hoje so figuras importantes no atual governo. Conto isso para revelar o motivo de terem me tirado da funo, por meio de ataque cerrado  minha reputao, o que foi feito de forma srdida. Tudo apenas porque no concordei com o modus operandi petista e mandei apurar o que de irregular e ilegal encontrei. 

O senhor queria denunciar a fbrica de dossis do PT ou atingir o prprio partido quando escreveu o livro? 
Tem muita gente do PT que eu respeito. No escrevi este livro para atacar o PT. O maior problema do PT est nas faces do partido. Muitas vezes por disputas internas  que surgem os dossis. As disputas so legtimas, mas fazer dossi  incompatvel com qualquer prtica republicana. Levantar falso testemunho contra algum  uma prtica violenta que enoja. O pior  que as coisas continuam exatamente iguais. Se voc trocar os personagens do livro, vai ver que os fatos continuam ocorrendo da mesma forma,  s olhar o que est acontecendo com o Cade nesse escndalo do metr de So Paulo. 

O Cade era um dos instrumentos da fbrica de dossis? 
Conto isso no livro em detalhes. Desde 2008, o PT queria que eu vazasse os documentos enviados pela Sua para atingir os tucanos na eleio municipal. O ministro da Justia, Tarso Genro, me pressionava pessoalmente para deixar isso vazar para a imprensa. Deputados petistas tambm queriam ver os dados na mdia. No dei os nomes no livro porque quero ver se eles vo ter coragem de negar. 

O senhor  afirmativo quando fala do caso Celso Daniel. Diz que militantes do partido esto envolvidos no crime. 
Aquilo foi um crime de encomenda. No tenho nenhuma dvida. Os empresrios que pagavam propina ao PT em Santo Andr no queriam matar, mas assumiram claramente esse risco. Era para ser um sequestro, mas virou homicdio. 

Por que o senhor sabe tanto sobre a morte de Celso Daniel? 
Eu era o delegado da rea onde o crime aconteceu. Fui o primeiro a chegar ao local quando o corpo foi encontrado. Tanto que fui eu que reconheci oficialmente que era o Celso Daniel e mandei abrir a investigao para apurar a morte. S que, naquela poca, nem o PSDB nem o PT quiseram prolongar o caso por causa das eleies. Fui afastado das investigaes, mas apurei tudo. Eu encontrei o carro e fotografei os cabelos que, depois, os peritos disseram que eram pelos de cachorro. Mas eu sei que no eram. S que nunca quiseram apurar a fundo. Ponho no livro o que descobri e no foi considerado. 

O ministro Gilberto Carvalho disse ao senhor que havia um esquema de cobrana de propina na prefeitura? 
Foi num momento de emoo, quando eu estava sob fogo cruzado na imprensa e fui falar com o Gilberto Carvalho. Desabafei, chorei e ele comeou a chorar comigo. A ele falou: "Veja, Tuma, quanto fui injustiado no caso Celso Daniel. Quando saiu aquela histria de que havia desvios na prefeitura, eu, na maior boa-f, procurei a famlia dele para levar um conforto. Fui dizer que o Celso nunca desviou um centavo para o bolso dele, e que todo recurso que arrecadvamos eu levava para o Z Dirceu, pois era para ajudar o partido nas eleies". Fiquei paralisado quando isso aconteceu. Pensei comigo: estou ouvindo uma confisso mesmo? 

Com que convico o senhor afirma que todos os ministros do STF foram grampeados? 
Minha convico est em tudo o que vivi e descobri conversando com alguns personagens dentro do governo na poca. Eu no tenho dvida de que os ministros foram grampeados. Se isso for investigado a fundo, com seriedade, ser provado facilmente. 

O senhor tambm diz no livro que descobriu a conta do mensalo no exterior. 
Eu descobri a conta do mensalo nas Ilhas Cayman, mas o governo e a Polcia Federal no quiseram investigar. Quando entrei no DRCI, encontrei engavetado um pedido de cooperao internacional do governo brasileiro s Ilhas Cayman para apurar a existncia de uma conta do Jos Dirceu no Caribe. Nesse pedido, o governo solicitava informaes sobre a conta no para investigar o mensalo, mas para provar que o Dirceu tinha sido vtima de calnia, porque a VEJA tinha publicado uma lista do Daniel Dantas com contas dos petistas no exterior. O que o governo no esperava  que Cayman respondesse confirmando a possibilidade de existncia da conta. Quer dizer: a autoridade de Cayman fala que est disposta a cooperar e a o governo brasileiro recua?  um absurdo. 

Quem engavetou a investigao? 
Eu levei o processo para o Tarso Genro e disse: olha, tem de apurar isso. Mas, quando veio essa resposta de Cayman, os caras pararam tudo. Isso foi para a gaveta da Polcia Federal e do ministro Tarso Genro. Estou esperando at hoje o retorno. Eu tenho certeza de que era a conta do mensalo. Eu publico no livro o documento para dizer isto: o governo no deixou investigar isso em 2007. 

No livro, o senhor escreve que um dos rus confirmou que essa era a conta do mensalo. 
No posso revelar o nome, mas, quando ele soube, disse-me: "Voc matou na mosca. Ainda bem que voc no estava investigando isso". Seis meses depois da minha demisso, esse personagem me disse que eu tinha cado por mandar investigar a conta do mensalo, a conta que pagava as viagens para Portugal. Eu falei para ele: os caras vo mandar me matar. 

Como surgiu a ideia de fazer o livro? 
Quando a imprensa publicou todos aqueles fatos inverdicos sobre o meu envolvimento com uma suposta mfia chinesa, busquei todas as instncias para me defender, mas no consegui contar a minha verso. Fui defenestrado do governo por fatos baseados numa investigao arquivada na qual eu no tinha sido denunciado nem processado. Quando aconteceu tudo aquilo comigo na Secretaria Nacional de Justia, percebi que no teria espao para me defender em nenhuma instncia, muito menos no governo ou na prpria Justia. Conversando com dois jornalistas, meus conhecidos e amigos, resolvi escrever o livro para contar a minha histria sobre os fatos que vi em trs anos de governo, para explicar por que isso aconteceu comigo, por que tentaram me defenestrar, por que acabaram tentando assassinar a minha reputao. 

 uma espcie de vingana pessoal? 
De forma alguma. Quem ler o livro vai perceber que o que escrevo so fatos. Eu precisava explicar por que cheguei ao governo, por que havia a confiana do presidente Lula em mim. S d para fazer isso contando as histrias que vivi com as pessoas, os fatos, e como a minha reputao foi construda para depois ser destruda. O livro  uma prestao de contas s pessoas que me querem bem, que sempre me honraram com sua confiana.  a forma que encontrei de tornar pblica a minha histria para aqueles que tm o interesse de conhecer esse retrato da minha vida profissional. Para que eles possam compreender o motivo pelo qual virei alvo do governo do PT. 

As pessoas podem interpretar como vingana ou ressentimento, no? 
 lgico que tem a mgoa. Eu vi meu pai, o senador Romeu Tuma, morrer por causa do que fizeram comigo no governo. Mas isso  diferente de vingana. Eu descrevo fatos no livro, conto a minha histria, exponho a minha vida e at corro riscos. Vingana no se faz assim. Eu no seria burro de praticar uma vingana dessa forma. As colocaes podem ser fortes, mas  o meu jeito. No tem nada ali que seja leviandade. So fatos verdadeiros. 

Por que o senhor decidiu fazer essas revelaes s agora? 
De tudo que vivi em trs anos de governo, no h nada relatado no livro que eu no tenha denunciado imediatamente aos rgos adequados. O livro s vai ser publicado agora porque demorei a escrever e porque precisei me aposentar da carreira de Estado para ter liberdade de tornar pblicos os fatos sem ser acusado de oportunismo poltico ou eleitoral. Eu sei que neste momento vo querer me atacar, dizer que estou a servio de interesses escusos. Mas no sou de me prestar a servir ningum. Quem me conhece sabe que falo o que penso e presto contas do que fao. 

O senhor afirma no livro que o ex-presidente Lula foi informante da ditadura.  uma acusao muito grave. 
No considero uma acusao. Quero deixar isso bem claro. O que conto no livro  o que vivi no Dops. Eu era investigador subordinado ao meu pai e vivi tudo isso. Eu e o Lula vivemos juntos esse momento. Ningum me contou. Eu vi o Lula dormir no sof da sala do meu pai. Presenciei tudo. Conto esses fatos agora at para demonstrar que a confiana que o presidente tinha em mim no governo, quando me nomeou secretrio nacional de Justia, no vinha do nada. Era de muito tempo. O Lula era informante do meu pai no Dops (veja o quadro ao lado). 

O senhor tem provas disso? 
No excluo a possibilidade de algum relatrio do Dops da poca registrar informaes atribudas a um certo informante de codinome Barba. Era esse o codinome dele. Os relatos do Lula motivaram inmeras operaes e fundamentaram vrios relatrios de inteligncia para evitar confuses maiores com os movimentos na poca. Ademais, o livro por si s  uma prova. Existe na rea policial prova documental e prova testemunhal. Eu sou uma testemunha viva. No tem nada contado no livro que eu no tenha vivido. Ningum me contou aquilo. Eu vivi e agora estou relatando. E digo mais: como informante do meu pai no Dops, o Lula prestou um grande servio naquele perodo. Eu quero deixar isso muito claro. Graas s informaes que o Lula prestava ao meu pai, muitos relatrios foram produzidos, muitas operaes foram realizadas. 

Uma afirmao dessas certamente vai gerar protestos e processos. 
 uma forma de interpretao, mas eu no acho. Acho que o Lula prestou um grande servio ao pas. Por se portar dessa forma, ele chegou aonde chegou. Sabe essa violncia nas manifestaes de hoje com black blocs? Se fosse no tempo do Dops com o Lula no se criava. O Lula combinava tudo com o Tumo (Romeu Tuma, ex-chefe do Dops e ex-senador). Quando fazia as manifestaes dos metalrgicos, era tudo tranquilo. O Lula conseguia manter a manifestao sob o controle dele. 

Alm do senhor e do prprio Lula, quem mais sabe dessa histria? 
Meu pai est morto. Ento, s eu e ele. Talvez alguma pessoa prxima a ele saiba. Digo e repito isso em pblico, pessoalmente e at no Estdio do Pacaembu. Quero que o Lula se sente na minha frente e diga que  mentira. Tenho fotos com ele desde a poca do Dops. Ele e o meu pai tinham uma relao muito sigilosa. Se isso vazasse, os dois estariam mortos. 

INFORMAES TEIS
O sindicalismo de resultados de Lula desembocou no pragmatismo poltico que o levou  Presidncia da Repblica e na governabilidade pela compra de apoio no Congresso com o uso de diversos tipos de moeda. A tilintante resultou na condenao e priso de seu ministro-chefe da Casa Civil, do presidente e do tesoureiro de seu partido, o PT, que cumprem pena pelo escndalo do mensalo na penitenciria da Papuda, em Braslia. Lula escapou do mesmo destino por convenincia dos polticos de oposio e pelo silncio, entre outros, de Jos Dirceu e do publicitrio Marcos Valrio, cujas visitas  Granja do Torto, embora registradas na agenda presidencial, ainda no vieram a pblico. O uso de outras moedas, por exemplo o relativismo moral que deu sobrevida a inimigos histricos que ele chamava de corruptos, como Paulo Maluf e Jos Sarney, teve um custo menor - pequenas retiradas do imenso tesouro de popularidade de Lula. Mesmo sabendo que Lula subordina a seus objetivos todas as demais consideraes, so de estarrecer, se tomadas pelo valor de face, as afirmaes de Romeu Tuma Jnior, ex-secretrio nacional de Justia. Tuminha diz que Lula foi informante do Dops, rgo que seu pai, Romeu Tuma, dirigia em So Paulo e no qual ele prprio trabalhava. Importante: ele no acusa Lula de ter trado sua causa ou seus companheiros. Diz que Lula dava informaes que ajudavam a evitar choques violentos com a polcia. Isso  prtica comum hoje e, como diz Tuminha, se os black blocs fizessem o que Lula fez, haveria menos violncia. Seria de alto interesse histrico um encontro pblico entre Lula e Tuminha para compararem as lembranas pessoais que cada um tem daqueles tempos duros. 

O CARTEL DOS TRENS
"Desde 2008 o PT queria que eu vazasse isso para atingir os tucanos na eleio municipal, e eu me negava por dois motivos: primeiro, por discordar do modus operandi; e, segundo, porque eu dizia que se aquilo vazasse nunca se chegaria ao final da investigao,  verdade dos fatos e a todos os envolvidos. O tempo mostrou que eu tinha razo, mas o PT nunca desistiu da ttica. O ministro da Justia, Tarso Genro, estava me pressionando pessoalmente, vinha  minha orelha como um grilo falante. Alis, vinham tambm os deputados petistas, esperneantes, e com noes jurdicas e ticas muito vagas, estrilando que era para deixar sair essa histria toda na mdia." 

RUTH CARDOSO
"O PT usava o meu laboratrio para fazer dossis. A ex-ministra Erenice Guerra foi inocentada, em 2012, desse tipo de acusao. Mas eu sustento, com o nome que herdei do meu pai: havia, sim, uma fbrica de dossis em via de ser normalizada, que inviabilizei com a mudana do laboratrio para a estrutura da secretaria. Estavam usando o meu laboratrio para fazer um dossi contra a finada Ruth Cardoso, mulher do ex-presidente FHC, e obviamente contra o governo de seu marido." 

DOSSI TASSO JEREISSATI
"Em janeiro de 2009, fui chamado  liderana do governo no Senado, onde encontrei o senador Aloizio Mercadante e um deputado federal, para tratar de projeto de interesse do governo e do ministrio. L me entregaram um pen drive com 'serssimas denncias' contra um adversrio do governo. Pensei: 'Outro dossi para destruir um novo 'alvo' do governo'. Dessa feita, o alvo era o ex-governador do Cear Tasso Jereissati, naquele momento um dos senadores lderes da oposio. A exigncia era que eu plantasse uma investigao em cima do Jereissati. Disseram-me que naquele pen drive havia um dossi." 

FULMINE O PERILLO
"Um dos mais escandalosos pedidos para fulminar algum me foi feito pelo ex-ministro da Justia Luiz Paulo Barreto. Um dia, ele me chamou ao seu gabinete e, um tanto lvido, disse: 'Isso aqui veio de cima, l do Planalto, do Gilberto Carvalho, secretrio particular do presidente Lula. Ele quer que voc atenda a um pedido do Lula e mande para o DRCI investigar isso aqui'. O 'isso aqui' do ministro da Justia era um envelope numa pastinha que ele me entregou, com um dossi contra Marconi Perillo." 

GRAMPO STF
"Segue a verdade do caso: no s
Gilmar Mendes foi grampeado como
tambm todos os outros ministros
do STF O grampo foi feito com uma
maleta francesa, empregada para
rastrear celulares em presdios.
Todos os ministros do Supremo
foram monitorados, quer atravs de
escuta dos telefones mveis com a
utilizao da maleta mvel, quer por
via da implantao fsica, em seus
computadores, de aparelhos de
escuta ambiental. Todo o aparato
foi tocado com a participao de arapongas, que prestavam servios
de segurana e limpeza aos prprios gabinetes dos ministros e estavam
vinculados aos agentes que operavam a Satiagraha."

MENSALO
Em maio de 2006, VEJA publicou que Jos Dirceu, entre outros, teria conta em paraso fiscal das Ilhas Cayman. Eu, como secretrio Nacional de Justia, j investigava casos relativos ao Opportunity. Mas, nesse esforo, recebo um retorno diverso: Daniel Dantas aparecia como denunciante, e no como ru. Embora tivesse cargo executivo no governo petista, eu suspeitava da existncia de tal conta. E mais: que essa conta era a lavanderia do mensalo no exterior. (...) Mandei cpia para o ministro Tarso Genro apurar isso, e espero a resposta at hoje... Ser que fui defenestrado por ter chegado  conta caribenha do mensalo?" 

O CASO CELSO DANIEL
"'Ministro, vou dizer ao senhor o que aconteceu no caso Celso Daniel at onde pude apurar. A priori, seus amigos de Santo Andr no queriam mat-lo, mas assumiram claramente esse risco. Planejaram e mandaram executar o sequestro de Celso Daniel para lhe dar um susto. Sentiram-se ameaados pela voracidade do partido.' O todo-poderoso Gilberto Carvalho comea a chorar junto comigo, sua voz trpega atropela minha fala e as prprias slabas: 'Eu te entendo. Veja, Tuma, quanto fui injustiado no caso Celso Daniel. No aceito essa injustia at hoje. Imagina voc que eu era o brao-direito do Celso, seu homem de confiana. Quando saiu aquela histria de que havia desvios na prefeitura, eu, na maior boa-f, procurei a famlia dele para levar um conforto. Fui dizer a eles que o Celso nunca desviou um centavo para o bolso dele, e que todo o recurso que arrecadvamos eu levava para o Z Dirceu, pois era para ajudar o partido nas eleies'." 


2#1 ENCONTROS MARCADOS
A polcia prende cafetinas, apreende agendas e intercepta ligaes que mostram que Braslia tambm  uma festa que mistura poder e diverso.
RODRIGO RANGEL

     Jeany Mary Corner foi personagem de alguns dos mais rumorosos escndalos da era petista. No maior deles, o mensalo, era ela quem providenciava acompanhantes para as festas que o operador do esquema, o empresrio Marcos Valrio, oferecia a polticos em hotis de Braslia. No caso que derrubou Antonio Palocci do Ministrio da Fazenda, l estava ela de novo, organizando encontros numa manso no Lago Sul onde lobistas e empresrios confraternizavam com o prprio ministro e seus assessores enquanto tratavam alegremente de negcios no governo. Na semana passada, Jeany deixou a vida de coadjuvante em escndalos para, finalmente, ser a protagonista de uma operao policial. Ela foi presa ao cabo de uma investigao que mapeou os servios de acompanhantes de luxo oferecidos na capital do pas. A ecloso da operao fez tremer o cho de gabinetes poderosos da Repblica. 
     Em mais de 3500 horas de conversas telefnicas interceptadas pela polcia e nas anotaes das agendas apreendidas, aparece o nome de figuras conhecidas em Braslia. Para atenderem esse pblico de notveis, sempre "muito exigente" segundo elas prprias, as agenciadoras levavam para a capital celebridades de vrias partes do pas. Os "cardpios", como so chamadas as listas com fotografias das mulheres colocadas  disposio da clientela, incluem acompanhantes que so classificadas em nveis de fama: as mais caras so as "tops". As garotas que j posaram para revistas so divididas em duas categorias: "capas de chuva", se saram na capa, ou "miolo", se tiveram seus ensaios publicados apenas nas pginas internas. O cache varia de 400 a 30.000 reais. Nos relatrios oficiais, h histrias detalhadas de encontros e festas acompanhados pelas cmeras da polcia. Em julho passado, por exemplo, Jeany Corner foi a Joo Pessoa, capital da Paraba, levar garotas para um encontro com autoridades. A estrela da excurso, segundo a polcia, era a gacha Nancy Peixoto, 24 anos. "No momento estou estudando e no sei do que voc est falando", disse Nancy a VEJA ao ser perguntada sobre a viagem. 
     Na Polcia Civil do Distrito Federal, onde a operao foi desenvolvida, houve ordem superior para que os relatrios fossem lipoaspirados de modo a no expor o nome das celebridades. Tudo para evitar qualquer suspeita de que o trabalho, oficialmente destinado ao combate  prostituio na rea central de Braslia, pudesse ser confundido com uma tentativa de produzir dossis contra polticos. "Os clientes nunca foram o objetivo da investigao", ressalta a chefe da Delegacia Especial de Atendimento  Mulher, Ana Cristina Santiago, responsvel pelo caso. As investigaes mostram que as acompanhantes tinham interesses alm da simples diverso. Nas escutas, duas cafetinas conversam sobre Luciane Hoepers, uma ex-modelo que ganhou o noticirio  recentemente ao ser presa sob a acusao de integrar uma quadrilha que desviava dinheiro de fundos pblicos. Ela usava seu charme para convencer polticos a aderir ao esquema. A conversa das cafetinas sugere que a ex-modelo era parte de um plano ainda mais ousado. Segundo elas, Luciane tinha a misso de tentar se aproximar do presidente da Cmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves. Ela deveria se esforar para conseguir um emprego no gabinete do parlamentar e, com isso, conseguir um canal para facilitar os interesses da quadrilha no Congresso. O plano no chegou a ser executado. Henrique Alves diz que nem sequer conheceu a ex-modelo. Diz Luciane: "Se tinham esse plano, no falaram assim to diretamente comigo". 


3#3 ENTREATOS NA PRISO
O Ministro da Educao Aloizio Mercadante visita o preso Jos Genoino e contraria a orientao da presidente Dilma, que queria o governo distante dos mensaleiros.

     No  novidade que setores do PT resistem  candidatura  reeleio da presidente Dilma Rousseff. rfos do antecessor Lula, eles no perdoam, por exemplo, o fato de a mandatria negar apoio ao projeto de regulamentao  e censura  da imprensa e ter tirado do partido o controle de estatais bilionrias, como a Petrobras. Na semana passada, esse estranhamento ganhou mais um captulo na esteira das prises dos condenados no processo do mensalo. Enquanto a direo do PT anunciou um ato de desagravo  sua antiga cpula, Dilma reiterou que no sair em pblico em defesa dos mensaleiros. Alm disso, reforou a determinao para que ningum no governo engrosse o coro em solidariedade aos petistas Jos Dirceu, Jos Genoino e Delbio Soares. So pelo menos duas as motivaes de Dilma. Uma delas  institucional. O presidente da Repblica, como representante mximo dos cidados, deve respeitar as decises judiciais. A outra  meramente eleitoral. A maioria dos brasileiros, segundo as pesquisas, aprova a priso dos mensaleiros. Dilma quer afag-los, no confront-los. O raciocnio  simples: se houver desgaste, que seja debitado s na conta do PT.
     A presidente deixou claro que a ordem destinada a blindar seu governo contra o mensalo vale para todos, sem exceo. E fez isso bem ao seu estilo, dando um pito num de seus auxiliares mais poderosos: o petista Aloizio Mercadante, Ministro da Educao, cotado para integrar a coordenao da campanha  reeleio, Mercadante visitou, no ltimo fim de semana, o petista Jos Genoino, que cumpre pena na casa de uma filha, em Braslia. Ao saber da visita, Dilma chamou Mercadante ao Palcio do Planalto: "Eu no disse que no era para ir l?". O ministro declarou a VEJA que visitou Genoino por uma "questo humanitria": "Ele  meu amigo, est passando por uma situao difcil, e eu fiz questo de visit-lo. Ela no me deu bronca nenhuma". No  o que os deputados petistas comentavam no plenrio da Cmara. At Genoino soube da reprimenda. Em razo dela, pediu que governistas no o visitem enquanto a Justia no decidir onde ele cumprir pena.  
     Depois de o PT fracassar na tentativa de convencer a Cmara a aposent-lo por invalidez, Genoino renunciou ao mandato de deputado. Recolhido  priso na ltima quinta-feira, o mensaleiro Valdemar Costa Neto (PR) tambm renunciou. Agora, a chamada bancada da Papuda s tem trs integrantes: Joo Paulo Cunha (PT) e Pedro Henry (PP), tambm condenados no processo do mensalo, mas que ainda no tiveram a priso decretada, e Natan Donadon  o primeiro deputado- presidirio. Dos 25 condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no mensalo, dezoito j cumprem pena. Nenhum deles recebeu at agora autorizao judicial para trabalhar durante o dia e voltar  cadeia  noite, benefcio previsto para aqueles enquadrados no regime semiaberto. Dirceu e Delbio at anunciaram ofertas de emprego fechadas com patres-amigos. A Justia percebeu o compadrio em tais acordos e j emitiu sinais de que rechaar essa estratgia. 
ADRIANO CEOLIN


